Sempre tomo uma Antarctica bem gelada no Bar Gramofone. Lá rola Jazz, Blues, Mpb e um papo mais cultural. O seu proprietário é Waltinho Natal, um poeta, que não gosta de ser chamado de poeta. Um cara místico, um guru, um cara metafísico, transcendental. Um louco na melhor acepção da loucura, um mascate. Lá me sinto em casa, tomo a minha cerveja gelada, escuto o que gosto. Sempre tem uma novidade, uma indicação de um livro legal. Sempre trocamos conhecimento de música, literatura, cinema, teatro, artes em geral. É onde não fico na fissura. E Waltinho sempre a gesticular e falar como um mascate, um poeta que não diz que é poeta, nota-se pelo seu jeito.
Tem uma frase dele que gosto pacas, é:"Eu sou uma criança, quando crescer quero ser poeta". No gramofone eu me livro do ostracismo de morar numa cidade pequena, que não dá valor nas coisas boas.
Eis aí um poema de Waltinho que retrata bem o que queremos de um poema. Não é dizer que é poeta é quem tem domínio da linguagem, nem ser só de alma. É necessário fundir as duas coisas. Ele sabe ser visceral, cerebral, transcedental como foi neste poema. Saquem o querer dele, que deve ser o querer de todo cara que quer ser poeta.
Quero um poema quântico
Cuja palavra molécula subverta o linear
Palavra pós conceito
Ousada que desafie a zona de eventos
E precipite nos mistérios do infinito.
Quero um poema quantum
Cujo a palavra átimo
Inquieta e imprevisível prescruta os recantos do impossível
No eterno escapar
Um poema microscópio cuja palavra invisível
Seja absolutamente reveladora.
Quero um poema atômico
Cuja palavra elétron transpire nos dedos de Jimi Hendrix
Um poema nuclear
Cuja palavra seja uma só:
Estilhaço.
Waltinho Natal.
Escrito por CÃO às 16h39
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